25 mai

Dia da adoção: leia texto da juíza aposentada Graça Varela sobre o assunto

Neste dia, a Escola Judicial traz um texto lindamente escrito por Graça Varela, juíza aposentada do TRT-5 e, atualmente, professora. Um texto inspirador, carregado de emoção que, certamente, vai tocar seu coração para refletir sobre esse tema tão importante!

 

"Dia da adoção. Dia de refletir sobre o tema. De falar. Esclarecer. Apontar o preconceito. A burocracia. A hipocrisia.O que significa adotar? Adotar é exercer a maternidade e a paternidade. O poder/dever familiar.

Falar sobre adoção é falar sobre maternidade ou paternidade. É falar sobre amor, vontade de ajudar a formar, desejo de perceber alguém seguindo junto e depois de você. Independe de laços biológicos porque é exercício de amor.

Esse caminho da maternidade ou paternidade pode surgir de um erro de conta. De um acidente de percurso. Ou de uma vontade consciente.

Assim é a adoção. Uma vontade que nos leva a cumprir todas as etapas previstas na legislação – pré-cadastro, curso, documentos, verificação das condições financeiras, psicológicas, sociais, definição dos critérios, cadastro. E tempo, paciência, controle de ansiedade. No link abaixo constam todas as etapas do processo de adoção.

https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/adocao/passo-a-passo-da-adocao/

Quanto mais critérios forem fixados por quem quer adotar, maior o tempo de espera. Em 2020, tínhamos nove vezes mais pretendentes para adoção do que de crianças em condição de serem adotadas. Os parâmetros de aceitação afastam a possibilidade de serem recebidas como filhos muitas dessas crianças. Todos querem ser pais, mas quase todos de crianças que atendam a requisitos que possivelmente nem os filhos biológicos poderiam preencher. Os critérios refletem o que nossa sociedade, disfarçada ou escancaradamente, é: racista, machista, antifeminista.

Não querem negros ou pardos. Preferem do sexo feminino por acharem que são mais doceis, mais submissas ou que cuidarão dos pais quando eles envelhecerem. Não aceitam com qualquer deficiência como se filho biológico tivesse certificado de 100% perfeito. Não querem com mais de dois anos, pois seriam crianças já com muito sofrimento. Ora, as crianças nos abrigos não estão obrigatoriamente sujeitas a sofrimentos. São carentes de família. E essa carência é superada pela presença da família. Além disso, estamos todos expostos a sofrimento, traumas. E todos podemos ser amparados para conseguir supera-los. É o que se espera de quem quer ser mãe. De quem quer ser pai.

Ainda há que vencer o preconceito em relação a quem pretende adotar. É a situação de muitos casais homoafetivos. Não há dúvida quanto à sua capacidade de amar, quanto ao desejo de cuidar, de proteger, de orientar. Não raro não conseguem. Ou ouvem do juiz a aquiescência preconceituosa: melhor a criança ficar num lar gay do que no abrigo. Silenciam. Precisam da decisão favorável. Mas dificilmente esquecem de que eram uma solução menos ruim e não a melhor ou uma das melhores soluções para a vida daquela criança.

Por outro lado, a liberação da criança para poder ser adotada, através da destituição do poder familiar, é um processo que, pela hipervalorização dos laços biológicos, acaba impondo um maior tempo de sofrimento. Fica no abrigo enquanto se insiste na busca de parentes que queiram ficar com a criança. Ora, se ela está ali é evidente que não é querida por ninguém da família biológica.

Não é apenas nesse ponto que a legislação acaba agravando o sofrimento da criança.

Acolhimento familiar – família previamente cadastrada acolhe o menor abandonado ou em situação de risco, enquanto ele não pode voltar para a família biológica ou é liberado para adoção. O regulamento proíbe que esta família adote a criança que acolheu. Assina-se um termo de compromisso nesse sentido. A justificativa é que deve ser respeitada a ordem do cadastro nacional de pretendentes. Ora, para se respeitar o desejo dos possíveis pretendentes, impõe-se à criança dois cortes afetivos. O primeiro da família biológica. O segundo, da família que a acolheu e que com ela ficou, às vezes por um longo período, cuidou, integrou, construiu laços de profundo afeto. A criança vai ter que deixar esse núcleo de ternura e voltar para uma família que a rejeitou ou que dela não cuidou. Ou para ser entregue a uma nova família, um mundo desconhecido, diferente daquele onde ela já se sentia amparada, cuidada, amada.

Após a adoção, não raro, o preconceito social em relação à criança. Já lá vai o tempo em que se escondia que aquela criança não era fruto de um laço biológico e sim afetivo. Mas, diante do preconceito, do imaginário perverso, da ignorância, da falta de bom senso, da ausência de empatia, não se fala, não se conversa para não se expor a situações como as que são narradas por Jane, nome fictício, já com dois filhos biológicos, com cerca de 40 anos, financeira, social e emocionalmente equilibrada.

- Vai criar o filho dos outros? Não, sou a mãe.

- Já viu quantos filhos adotivos matam os pais? Já vi sim. E muitos biológicos fazendo o mesmo.

- E se vier de cabelo ruim? Olhou o cabelo liso/ selagem/ chapinha de quem a questionava... O que é cabelo bom? O seu?

- Quanta caridade! Caridade? Ninguém faz caridade 24h. Sou mãe. Apenas isso.

- Agressiva, não é? Será que tem alguém assassino na família da mãe? Tem sim. Eu. A mãe. Se você continuar falando viro assassina.

- Você foi encontrado na lata do lixo? Perguntou a coleguinha quando teve a revelação de que o menino havia sido adotado, demonstrando o estereotipo que se construiu em relação às crianças disponibilizadas para adoção.

- Você sabe a sorte que você teve na vida? O quanto de ajuda você recebeu? Está na hora de retribuir – palavras da médica no aconselhamento sobre alimentação. Todos os filhos são ajudados. Todos devem ser gratos. Porquê especificamente aqueles que não são biológicos?

Dia mundial da adoção.

Dia de falar. De esclarecer. De informar o caminho. De ouvir quem adotou e nos assegura que é um amor tão ou mais forte do que aquele que se tem pelos filhos do sangue, possivelmente porque foi efetivamente querido, porque é uma decisão de maternidade ou paternidade. De pensar as frases sem noção que são ditas e que machucam, humilham, segregam. De repensar o lugar comum da exploração da imagem da criança abandonada, reforçando o impacto da rejeição. De valorizar o afeto e não o sangue. A maternidade e paternidade afetivas e não apenas a biológica, a genética.

Adotar é ser mãe. É ser pai. Apenas isso. Ou melhor, tudo isso".

Texto: Graça Varela, mãe afetiva

 

 

Ejud5 - 25/05/2022

Ex: 02/07/2022
Ex: 02/07/2022