“No meio jurídico a corrupção floresce muito, porque o poder é extremamente exacerbado”, diz especialista em palestra realizada pela Ejud5

Na palestra Análise psicológica da corrupção brasileira, que aconteceu na última sexta-feira (27), a psicóloga e doutora em psicanálise pela University Of Essex (Inglaterra) Camila Novaes colocou o Brasil no divã e apontou “questões inconscientes relacionadas à corrupção”. De acordo com ela, no comportamento corrupto, o indivíduo não faz só pela vantagem, dinheiro ou poder, “faz também pelo gozo e excitação” que o transgredir proporciona. “Geralmente não acontece uma vez só, é viciante. Com o tempo já não tem mais a mesma sensação e continua fazendo, indo cada vez para quantia mais altas, em situações mais arriscadas”.

A psicóloga comparou a corrupção a um elemento do código genético, em que essa característica pode ou não ser usada. Ela explicou que essa tendência à corrupção dentro de cada indivíduo, somada a outros fatores, determinará a ativação ou não desse elemento. “Depende da sua criação, da sua personalidade, depende também do meio, de como sua profissão vai exacerbar isso ou não.” Novaes disse que as atividades ligadas à área jurídica são consideradas “arriscadas” e alegou que nessa esfera “a corrupção floresce muito, porque é um meio no qual o poder é extremamente exacerbado”.

A pesquisa realizada pela psicóloga apontou ainda que um dos fatores que faz a corrupção aumentar é a ideia de que ela é um “crime sem vítimas”, uma vez que corruptor e corrupto geralmente beneficiam-se do ato e que há também um distanciamento social. “Quando você diz que está lesando a sociedade, você não consegue identificar exatamente quem você tá lesando, então o indivíduo tende a fazer mais”, esclareceu Novaes.

Acima de todos

Esse pensamento está relacionado a um grave problema brasileiro chamado de estratificação do social, que pode ser entendido como a classificação de indivíduos e grupos de acordo com status sociais e poder econômico. “Se você tem um carro, uma casa, um status melhor, você acha que aquele que tem menos, tem menos valor também. Então quando você acha que é melhor do que o outro, você também vai se sentir com mais direitos, mais importante, vai achar que não precisa respeitar a lei. Na verdade, vai se achar acima da lei”, ponderou Novaes.

Outro ponto relacionado a este aspecto apresentado na palestra foi a cultura de privilégios. “Quanto mais privilégios você dá para o sujeito, mais ele vai querer. É um ciclo infinito.” De acordo com Camila, as pessoas propõem o fim da desigualdade social, mas ninguém cogita abrir mãos de privilégios e posses. Fazendo menção a uma fala do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, a psicóloga abordou as imunidades tributárias, o foro privilegiado, juros subsidiados, auxílio-moradia, carro oficial e prisão especial concedidos em um “universo paralelo”. E avaliou que o maior e mais grave problema do Brasil é a desigualdade social. “Estamos nos assustando e vendo a corrupção como o grande problema do Brasil, mas o problema nº 1 é a desigualdade social, que gera a corrupção”.

Reconhecimento

Na palestra, Novaes ponderou que a corrupção faz parte da história de todos os países, “é parte integral da cultura humana”. No entanto, em alguns lugares a corrupção terá características diferentes devido à influência cultural. É o caso do Brasil. “Traumas que a gente passou influenciam na corrupção hoje”, diz ela referindo-se à chegada dos portugueses nas terras tupiniquins.

Entretanto, para Novaes, a corrupção que aniquila a política nacional e indigna a sociedade brasileira tem origem antes do período colonial. “Não podemos dizer que foram os portugueses que trouxeram isso para o Brasil. Se é do humano, tinham índios tendo algum tipo de ganho privado em relação à tribo. Mas como os índios tinham uma visão muito mais coletiva, com certeza era mais difícil que acontecesse. A gente traz essa herança e vai modificando com o nosso jeitinho”.

A psicóloga defendeu ainda que a corrupção é característica de países em desenvolvimento e que quando essa fase é ultrapassada, a tendência é diminuir a prática ilícita. Citando como exemplo a Inglaterra, os Estados Unidos e a Dinamarca, país modelo no combate à corrupção, Novaes disse que o adequado não é traçar exatamente o mesmo caminho, “se copiar, vai dar errado”. Para ela, o processo de desenvolvimento inclui o respeito às características de cada nacionalidade, “desenvolvendo-as e potencializando-as para tornar o país mais igual socialmente”.

Por fim, Novaes concluiu que o Brasil vive uma crise moral e que os cidadãos precisam entender quais são suas obrigações éticas. “Esse reconhecimento requer um processo consciente de desenvolvimento moral. Isso não é feito por acaso, é consciente, é uma decisão que você toma. Temos que ter um objetivo comum, que é o bem-estar do outro e o senso de união.”

 

 

Silvana Costa Moreira (Ejud5) 1 out 2019